sexta-feira, 13 de abril de 2012

A Regulação do Estado e o Capitalismo


O sistema capitalista, analisado da perspectiva marxista, contem em si a contradição que tanto o retroalimenta, quanto o coloca em situações de crises constantes. Essa contradição existe no campo ideológico, mas também na incapacidade matemática de sua perpetuação, perspectiva a qual buscaremos analisar.
Desde seu estabelecimento, esse modelo econômico vem enfrentando momentos de tensão, os quais são constantemente resolvidos com a apropriação de elementos externos como mecanismos de salvação, ou mesmo a criação de tais mecanismos. Podemos ilustrar essa idéia com os casos clássicos do surgimento da indústria cultural e das guerras imperialistas. No início do século XX, enfrentando um momento de superprodução autodestrutivo, o Capitalismo encontra nos países subdesenvolvidos o cenário ideal para o escoamento de sua mercadoria excedente. Porém, para manter o grau de alienação necessário à realização desse processo, foi necessária a criação de uma ferramenta capaz de estimular o consumo e a despolitização. A indústria cultural, tão analisada pela escola frankfurtiana, cumpre seu papel na manutenção do capitalismo, alargando os níveis de consumo até então presentes na sociedade, permitindo assim a sustentabilidade do sistema.
 Mas essas soluções mostram-se temporárias, pois, na medida em que a busca pelo crescimento econômico se mantém uma constante, novamente os fenômenos da excessiva produtividade, da incapacidade de manutenção do estado de bem estar social, da escassez de recursos naturais (crise ambiental), colocam em cheque a viabilidade desse modelo. Nesses momentos, algumas instituições atuam com papel essencial.
O Estado dentro da análise marxista é tido como mecanismo de regulação do sistema capitalista. Isso porque é constituído da elite burguesa para quem governa e articula seus interesses. É pensando na capacidade do Estado de regular os mercados que também a corrente Neoliberal surge como produto do sistema capitalista, assumindo seu papel fundamental na gestão e na fiscalização dos mesmos. Assim, o Estado assume uma função especialmente importante no capitalismo em momentos de crise, onde a fragilidade do sistema exige instituições que o regulem e reorganizem, como o caso da mais recente crise dos anos 2000.
Sua atuação representa o interesse da elite econômica principalmente pela maneira como articula seu jogo administrativo. Ora, se o orçamento do Estado consiste da arrecadação de impostos (deixemos de lado a questão dos bancos por enquanto) e estes tributos são voltados para a manutenção do estado de bem estar social, a destinação desse recurso para outros fins implica em uma ação política enviesada, em favor daqueles que se beneficiam com isso. De todo o orçamento estadual, apenas uma pequena parte é destinada para os fins “legítimos”. Grande parte é retida como poupança para momentos de crise. E quem são os beneficiários?
A elite burguesa, visando a manutenção de seu poder econômico, assume também importantes funções no mecanismo do Estado, a fim de defender os interesses de sua classe.
Para auxiliar nossa reflexão, recorremos a alguns pensamentos de Mosca, que nos traz um panorama histórico geral sobre a formação das classes dirigentes. Segundo este autor, nas sociedades menos civilizadas, os indivíduos que demonstrarem maior habilidade na guerra vão ser aqueles que adquirirão qualidades para se constituir enquanto classe dirigente ou classe política, tomando para si, a principio, parte da produção, aumentando gradativamente a suas exigências, a ponto de se tornarem donos das porções produtivas de terra.
Sendo esses guerreiros os donatários das terras que são a principal fonte de riqueza dessas sociedades com civilização menos desenvolvida, e sendo a produção agrícola a principal fonte de riqueza nessas sociedades, o domínio político exercido através da força passa a ser definido pela dominação econômica. Com o surgimento dos grandes centros de consumo, esta importante mudança política vai ser impulsionada, onde os ricos, e não mais os bravos, vão dirigir estas sociedades. Esse fato é percebido ainda hoje quando observamos as elites que constituem o Estado moderno.
A Teoria da Circulação das Elites, desenvolvida pelos autores Mosca e Pareto, conclui que essa elite dominante, atualmente a elite financeira, mantém sua hegemonia a partir de mecanismos políticos recorrentes dessa ciência: critérios de hereditariedade (direta ou indireta) e de inércia (acomodação e assimilação). Dessa análise a Teoria das Elites extrai três tipos de classificação social: pessoas que constituem a elite que governa, grupos que constituem a elite que não governa e a grande maioria, constituinte da não-elite.
Dentro da análise anterior, podemos associar as elites financeiras como constituintes da elite que não governa, a qual alimenta os grupos governantes. Constituem caráter de exceção casos onde membros da não-elite atingem cargos entre os governantes.
 Essa elite financeira, sendo a principal prejudicada pelos momentos de crise, possui total interesse de intervir na regulação do mercado, ação que precisa ser financiada de alguma maneira.
O caso brasileiro de intervenção na crise de 2008 aparece como ponto fora da curva dos mecanismos naturais de regulação dos mercados. Ao invés do comum recolhimento dos mercados, o governo brasileiro colocou seu foco na base da cadeia de valor, estimulando o consumo da classe trabalhadora, a fim de que o mercado se reconstituísse naturalmente pela lei da oferta e da procura. Porém em quase todos os casos, o que encontramos é um estado de recessão.
Alguns autores neoliberais buscaram delimitar o papel do Estado para a boa manutenção do sistema:
“Estes são, pois, os papéis básicos do governo numa sociedade livre – prover os meios para modificar as regras, regular as diferenças sobre seu significado, e garantir o cumprimento das regras por aqueles que, de outra forma, não se submeteriam a elas” (FRIEDMAN, 19XX – pg.32).
         Conforme Milton Friedman, o mercado é livre e de cooperação voluntaria, as pessoas são livres de qualquer forma de coerção. Seguindo esta perspectiva, o papel do mercado é permitir unanimidade sem conformidade e ser sistema sem efetiva representação proporcional.
         A sociedade livre para Friedman pressupõe que as pessoas, seguindo o bom senso e o costume, estabelecem o consenso social subjacente, nas questões mais fundamentais para coesão social. Por outro lado, a unanimidade da sociedade é inexistente. As pessoas têm vontades diferentes sobre as mais diversas questões. O papel do governo dentro dessa linha de raciocínio é fazer a manutenção das leis e costumes, criar novos mecanismos de regulação das diferenças e promover as mudanças nas regras sociais.
 Na área econômica, para os neoliberais, a responsabilidade do governo já foi reconhecida há muito tempo em relação ao sistema monetário, que tem como papel de cunhar a moeda, regular o seu valor e o de moedas estrangeiras. Já no contexto da crise econômica, de acordo com Friedman, na relação do governo e o sistema monetário, é inteiramente legítimo que as instituições governamentais exerçam seus poderes para a manutenção e protecionismo do mercado interno e que atraiam investimentos externos, como por exemplo, a isenção do IPI no final do governo Lula que serviu para aquecer o mercado interno e atrair investimentos de multinacionais.
Encontramos nesses exemplos a peça chave para esta análise: o Estado, defensor do interesse da elite financeira que o alimenta, exerce seu papel para a manutenção do sistema e consequentemente da hegemonia das elites. Os mecanismos de controle da circulação, os mecanismos de manutenção econômica, os ideais associados à corrente neoliberal e os exemplos acima desenvolvidos, servem para evitar, ou melhor, para reorganizar a contradição inerente ao modelo Capitalista. O governo, como agente regulador dos mercados é abraçado como ferramenta fundamental do sistema, assim como outros agentes-chave que não constam dessa análise, mas também exercem sua função mantenedora (como é o caso da indústria do entretenimento, do terceiro setor etc.).
O Brasil, apesar de momentos de exceção à regra, segue os parâmetros neoliberais no que diz respeito à constituição do Estado. Isso porque desde sua própria Constituição, está assegurado em sua função reguladora.

domingo, 1 de abril de 2012

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Blog criado para postagens de trabalhos realizados no curso de política 7 do 4º ano de ciência socias da PUC-SP. Bem vindos e bom debate