sexta-feira, 29 de junho de 2012


Um natal inesquecível!
O natal de 2011 será para sempre lembrado, principalmente pelos donos das maiores fortunas do mundo. Não por seus deliciosos jantares com peru, não por suas champanhes, não por suas férias em ilhas paradisíacas, não por seus presentes da Apple, mas por seus emblemáticos atos de bondade. As fundações Cruz Vermelha e SavetheChildren não podiam esperar tamanha generosidade para promover um natal especial para os seus assistidos! Das contas bancárias desses filantropos, saíram grandes quantidades de recursos para a promoção desse natal. Mas estariam eles visando o marketing pessoal?
Bem, eles não tiveram essa escolha. O grupo ciberativistaAntiSec, uma dissidência radical do Anonymous, invadiu o banco de dados da Stratfor e utilizou-se dos dados de cartões de crédito dos seus clientes para desviar mais de 1 milhão de dólares às entidades citadas. As “doações”, no estilo Robin Hood, causaram controversas na mídia e evidenciam um poder de mobilização da internet.

Sérgio Amadeu (2011) nos conta que a emergência e expansão das tecnologias informacionais adquire uma grande relevância a partir do momento que através delas podem se manifestar processos políticos, como jogos de força, que podem se caracterizar como recursos e estratégias de poder. A maior expressão nesse contexto das TI’s é a internet, onde através da comunicação em rede os indivíduos se encontram e disseminam informações de forma aparentemente livre e anônima. Amadeu, partindo de conceitos de Manuel Castells, comenta a respeito das redes
são as ideias, as visões, os projetos, que geram sua programação. Estes são materiais culturais. Na sociedade em rede, a cultura está, em geral, incorporada nos processos de comunicação, adquirindo uma centralidade social jamais vista. 

             A análise de Amadeu segue pelas proposições foucaultiana/deleuziana e se cruzando com as definições de poder na rede definidas por Castells. Este autor define quatro formas  de poder distintas: “poder de conectar em rede (networking power); poder da rede (network power); poder em rede (networked power); e poder para criar redes (network-making power)”. Ele analisa, assim, que a sociedade do controle na sociedade da informação se estabelece pela distribuição desse poder propiciada pelas redes, através do qual as pessoas podem artricular informações de forma livre, estando submetidas a uma forma concentrada de vigilância, que quebra com essa concepção de liberdade. Ele explica que essa liberdade propiciada pela rede se constitui enquanto liberdade modulada que  passa pela “ultra individualização, pela necessidade de que os indíviduos sejam acompanhados e parametrizados em suas variações de humor, de perspectiva e de objetivos.”
            Utilizando o conceito de multidão de Hardt e Negri, Amadeu nos fala que, a partir do abalo que as estruturas hierárquicas sofreram com as redes informacionais, a velha elite de administradores de estruturas erguidas no capitalismo industrial se colocou em posição de combate diante da desintermediação das redes digitais distribuídas, gerando uma gigantesca onda de controle, vigilância e rastreamento distribuído efetuado na própria rede. A partir disso, ele desenvolve a reflexão, onde a multidão, proletariado da sociedade da informação, vai buscar construir um poder comum que surge a partir da diversidade, da radicalização da liberdade praticada coletivamente. “Busca-se a sociedade dirigida coletivamente a partir das diversas possibilidades comunicacionais.”
Os grupos ciberativistas representam hoje uma revolta silenciosa que militam em prol dessa causa. Utilizam-se da tecnologia (criada a princípio para fins de segurança de dados do governo americano) para subverter a ordem e proporcionar a oportunidade de milhares de internautas agirem politicamente, anonimamente.
A facilidade de transmissão de informações e a velocidade com que caminham não garantem um aspecto de verdade aos conteúdos. Porém, a questão aqui problematizada é o impacto que causam mesmo assim. Desde a polinização da internet, ouvimos do senso comum a necessidade de verificação das fontes. Nossos professores do colégio, nossos pais, nossos governantes, nos persuadem a verificar as informações que circulam nessa mídia pela quantidade de “mentiras” nela contida. Ora, se não passam de inverdades, como causa tanto impacto a divulgação sem fontes de supostos conteúdos sigilosos? Nesse caso, vale o ditado “em toda mentira há um fundo de verdade” ou ainda que “uma mentira contada várias vezes, torna-se uma verdade”.
A veracidade das informações não é um fator decisório no ciberativismo na medida em que o impacto é causado da mesma maneira pela simples possibilidade de se tratar de uma verdade. Ainda mais quando se tratam de fontes anônimas. É o caso do site WikiLeaks.
Este site se caracteriza como uma rede de informações, surgido em 2006 e sujeita a um processo de transformação, cujo objetivo é o ciberativismo. Antes qualquer pessoa poderia postar informações no site, mas agora este conta com a revisão dos ativistas que trabalham como uma agência de informações. O objetivo do site é travar uma guerra informacional com os Estados através da divulgação de informações sigilosas para o conhecimento da sociedade, agindo sobre o princípio de exigir a transparência total do Estado . Esse movimento causou grande preocupação por parte do alto escalão do poder mundial, principalmente os EUA, que tem a rede wikileaks como inimigo declarado, atuando de forma a fechar contas bancárias do grupo para que esse não receba doações e buscar meios legais de ilegalizar a prática contida nesse site.
Observamos assim como a internet se diferencia dos meios de comunicação de massa. Através da autonomia de criar e disponibilizar informação, esta se caracteriza enquanto importantíssima ferramenta política que mobiliza a pessoas em prol de uma causa sem que estar necessitem se locomover, como nos mostrou a mobilização do movimento hacker Anônimos, que conseguiu derrubar o sistema da Visa e Master Card apenas incentivando as pessoas a acessarem os sites das mesmas. Finalizamos com mais uma contribuição de Sérgio Amadeu
“Milhares de apoiadores do Wikileaks, dispersos em todos os continentes, replicaram em seus servidores as informações que tanto o Departamento de Estado norte-americano queria evitar que fossem divulgadas. Isto confirmou o que Alexander Bard e Jan Söderqvist afirmaram ser uma característica das redes distribuídas, ou seja, "todo ator individual decide sobre si mesmo, mas carece da capacidade e da oportunidade para decidir sobre qualquer dos demais atores”
Referencias
SILVEIRA, Sérgio Amadeu; Ferramentas conceituais para a análise política nas sociedades informacionais e de controle; 35º Encontro anual da ANPOCS; GT 01 - ciberpolítica, ciberativismo e cibercultura; 2011

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