Um natal inesquecível!
O natal de 2011 será para sempre
lembrado, principalmente pelos donos das maiores fortunas do mundo. Não por
seus deliciosos jantares com peru, não por suas champanhes, não por suas férias
em ilhas paradisíacas, não por seus presentes da Apple, mas por seus
emblemáticos atos de bondade. As fundações Cruz Vermelha e SavetheChildren não
podiam esperar tamanha generosidade para promover um natal especial para os
seus assistidos! Das contas bancárias desses filantropos, saíram grandes
quantidades de recursos para a promoção desse natal. Mas estariam eles visando
o marketing pessoal?
Bem,
eles não tiveram essa escolha. O grupo ciberativistaAntiSec, uma dissidência
radical do Anonymous, invadiu o banco de dados da Stratfor e utilizou-se dos
dados de cartões de crédito dos seus clientes para desviar mais de 1 milhão de
dólares às entidades citadas. As “doações”, no estilo Robin Hood, causaram
controversas na mídia e evidenciam um poder de mobilização da internet.
Sérgio
Amadeu (2011) nos conta que a emergência e expansão das tecnologias
informacionais adquire uma grande relevância a partir do momento que através
delas podem se manifestar processos políticos, como jogos de força, que podem
se caracterizar como recursos e estratégias de poder. A maior expressão nesse
contexto das TI’s é a internet, onde através da comunicação em rede os
indivíduos se encontram e disseminam informações de forma aparentemente livre e
anônima. Amadeu, partindo de conceitos de Manuel Castells, comenta a respeito
das redes
são as ideias,
as visões, os projetos, que geram sua programação. Estes são materiais
culturais. Na sociedade em rede, a cultura está, em geral, incorporada nos
processos de comunicação, adquirindo uma centralidade social jamais vista.
A análise de Amadeu segue pelas proposições
foucaultiana/deleuziana e se cruzando com as definições de poder na rede
definidas por Castells. Este autor define quatro formas de poder distintas: “poder de conectar em
rede (networking power); poder da rede (network power); poder em rede
(networked power); e poder para criar redes (network-making power)”. Ele
analisa, assim, que a sociedade do controle na sociedade da informação se
estabelece pela distribuição desse poder propiciada pelas redes, através do
qual as pessoas podem artricular informações de forma livre, estando submetidas
a uma forma concentrada de vigilância, que quebra com essa concepção de
liberdade. Ele explica que essa liberdade propiciada pela rede se constitui
enquanto liberdade modulada que passa
pela “ultra individualização, pela necessidade de que os indíviduos sejam
acompanhados e parametrizados em suas variações de humor, de perspectiva e de
objetivos.”
Utilizando o conceito de multidão de
Hardt e Negri, Amadeu nos fala que, a partir do abalo que as estruturas
hierárquicas sofreram com as redes informacionais, a velha elite de
administradores de estruturas erguidas no capitalismo industrial se colocou em
posição de combate diante da desintermediação das redes digitais distribuídas,
gerando uma gigantesca onda de controle, vigilância e rastreamento distribuído
efetuado na própria rede. A partir disso, ele desenvolve a reflexão, onde a
multidão, proletariado da sociedade da informação, vai buscar construir um
poder comum que surge a partir da diversidade, da radicalização da liberdade
praticada coletivamente. “Busca-se a sociedade dirigida coletivamente a partir
das diversas possibilidades comunicacionais.”
Os
grupos ciberativistas representam hoje uma revolta silenciosa que militam em
prol dessa causa. Utilizam-se da tecnologia (criada a princípio para fins de
segurança de dados do governo americano) para subverter a ordem e proporcionar
a oportunidade de milhares de internautas agirem politicamente, anonimamente.
A
facilidade de transmissão de informações e a velocidade com que caminham não
garantem um aspecto de verdade aos conteúdos. Porém, a questão aqui
problematizada é o impacto que causam mesmo assim. Desde a polinização da internet,
ouvimos do senso comum a necessidade de verificação das fontes. Nossos
professores do colégio, nossos pais, nossos governantes, nos persuadem a
verificar as informações que circulam nessa mídia pela quantidade de “mentiras”
nela contida. Ora, se não passam de inverdades, como causa tanto impacto a
divulgação sem fontes de supostos conteúdos sigilosos? Nesse caso, vale o
ditado “em toda mentira há um fundo de verdade” ou ainda que “uma mentira
contada várias vezes, torna-se uma verdade”.
A
veracidade das informações não é um fator decisório no ciberativismo na medida
em que o impacto é causado da mesma maneira pela simples possibilidade de se
tratar de uma verdade. Ainda mais quando se tratam de fontes anônimas. É o caso
do site WikiLeaks.
Este
site se caracteriza como uma rede de informações, surgido em 2006 e sujeita a
um processo de transformação, cujo objetivo é o ciberativismo. Antes qualquer
pessoa poderia postar informações no site, mas agora este conta com a revisão
dos ativistas que trabalham como uma agência de informações. O objetivo do site
é travar uma guerra informacional com os Estados através da divulgação de
informações sigilosas para o conhecimento da sociedade, agindo sobre o
princípio de exigir a transparência total do Estado . Esse movimento causou
grande preocupação por parte do alto escalão do poder mundial, principalmente
os EUA, que tem a rede wikileaks como inimigo declarado, atuando de forma a
fechar contas bancárias do grupo para que esse não receba doações e buscar
meios legais de ilegalizar a prática contida nesse site.
Observamos
assim como a internet se diferencia dos meios de comunicação de massa. Através
da autonomia de criar e disponibilizar informação, esta se caracteriza enquanto
importantíssima ferramenta política que mobiliza a pessoas em prol de uma causa
sem que estar necessitem se locomover, como nos mostrou a mobilização do
movimento hacker Anônimos, que conseguiu derrubar o sistema da Visa e Master
Card apenas incentivando as pessoas a acessarem os sites das mesmas.
Finalizamos com mais uma contribuição de Sérgio Amadeu
“Milhares
de apoiadores do Wikileaks, dispersos em todos os continentes, replicaram em
seus servidores as informações que tanto o Departamento de Estado
norte-americano queria evitar que fossem divulgadas. Isto confirmou o que
Alexander Bard e Jan Söderqvist afirmaram ser uma característica das redes
distribuídas, ou seja, "todo ator individual decide sobre si mesmo, mas
carece da capacidade e da oportunidade para decidir sobre qualquer dos demais
atores”
Referencias
SILVEIRA,
Sérgio Amadeu; Ferramentas conceituais
para a análise política nas sociedades informacionais e de controle; 35º
Encontro anual da ANPOCS; GT 01 - ciberpolítica, ciberativismo e cibercultura; 2011
Nenhum comentário:
Postar um comentário