segunda-feira, 18 de junho de 2012


E a locomotiva ganha uma pintura nova...

Se o comunismo é viável? Seria essa uma pergunta descabida nos dias de hoje? Bem, para muitos ouvir o nome de Marx causa arrepios e descrenças. Utópico! Ultrapassado! Comedor de criancinhas! O mais interessante (para não dizer lamentável) é que a própria esquerda manifesta atualmente tais reações ao velho barbudo.
Isso ocorre porque, para além do ideal comunista, a maioria das pessoas desconhece o papel fundamental que Marx desempenhou para a análise do nosso modo de vida moderno. Desconhecem sua metodologia e seu profundo conhecimento sobre a lógica do capital. Não há dúvidas que muitos adendos foram necessários à sua obra, sendo o maior expoente a escola do pensamento crítico de Frankfurt. Mas apesar disso, ainda encontramos elementos centrais de sua teoria na realidade contemporânea.
Se o capital é como uma locomotiva, nós somos como andarilhos: há os que pegam carona, os que ficam de fora, mas levam toda a poeira na cara e os que são atropelados por ela, eliminados, portanto. Não há dúvida que a opção mais lógica seria fazer de tudo para subir no trem, afinal, sentar-se confortavelmente, sem precisar gastar suas energias caminhando, com acesso a vagão restaurante e tudo não é o que todos desejariam? E se alguém desejar que não haja andarilhos caminhando ao lado na poeira desértica? Seria esse homem um louco, simplesmente por desejar que essa desigualdade inexistisse, mesmo que para isso fosse necessário apertar-se no banco do passageiro com o estranho ao seu lado? Mesmo que para isso desistissem todos de se locomoverem com esse meio de transporte, necessitando a criação de outro, já que esse causa danos aos demais?
Istvan Mészaros é esse homem. Ao dedicar-se à atualização de “O Capital” de Marx, em seu livro “Para além do Capital”, o autor mostra uma rica análise para a construção de um projeto de futuro. Uma raridade na esquerda contemporânea, acostumada aos reformismos aqui e ali.
Em seu texto “O poder da ideologia”, explora a figura do capital como uma lógica maior que os próprios sistemas político-econômicos (capitalismo e socialismo), onde a reprodução sistêmica do capital é mantida, independente da forma de controle político e distribuição de renda. A própria noção de estado de bem estar social desacreditou a esquerda da “revolução” almejada e a fragmentação da classe trabalhadora inibiu qualquer tipo de ação nesse sentido, algo que fazia muito mais sentido no século XIX. Essa brecha não identificada por Marx foi incluída na análise de Mészaros como elemento fundamental para a viabilidade de uma mudança revolucionária.
Ao mesmo tempo em que a ideologia do capital é um obstáculo à construção de contra-ideologias, possui em si o germe para a conscientização de classes, no sentido clássico do termo: a fragmentação da classe trabalhadora traria à tona o debate entre os trabalhadores novamente, mesmo que entre si. Ora, dentro de um sistema-mundo onde não se sabe mais exatamente quem manda, onde há uma dominação que ultrapassa a noção de Estado – Nação e cujas grandes corporações ganham dimensão internacional, nada mais inspirador do que uma possível conscientização de classes! Mészaros ainda enfatiza que a classe trabalhadora possui uma responsabilidade histórica com a emancipação humana dessa ideologia, o que é mais difícil de o quando se está sentadinho confortavelmente tomando Toddynho no vagão restaurante.
A preocupação que fica é a de que o capital está para além do sistema capitalista, o que implicaria que não podemos nos deixar por satisfeitos com a mudança do sistema. Isso fica mais claro quando ilustrado pela questão ambiental. Mészaros em sua atualização de “O Capital”, inclui na análise marxiana os limites da crise ambiental, e hoje vemos um grande movimento em prol do paradigma de Desenvolvimento Sustentável que supostamente rompe com toda a lógica conhecida. Ora, “pau que nasce torto, nunca se endireita”. Um discurso que lida com qualquer possibilidade de reprodução sistemática de capital, ainda que “limpa”, “verde”, “socialmente correta”, está obviamente vinculado a essa ideologia hegemônica, independente se propõe uma alteração no modo de vida político-econômico.
Na mesma linha de raciocínio, buscando compreender a dominação globalizada que vivemos hoje, Negri e Hardt em seu livro “Império” analisam as novas estruturas do capital e suas possíveis formas de resistência. Mais do que nunca, a análise marxiana coube para a compreensão da dominação atual, na medida em que aponta o capital como princípio externalizante (como encontramos também em Harvey) e cujas barreiras territoriais não são problema para sua expansão incontrolada na busca de novos mercados.
O conceito de império então, reconstruído pelos autores, ganha significação de uma forma de poder sem fronteiras, ultrapassando o modelo conhecido de Estado para um tipo de dominação político-econômica global, dificultando a elucidação de quem são os poderosos. O próprio termo “aldeia global” dá uma idéia do tipo de dominação que estamos falando: a idéia de que seria possível a criação de uma solidariedade mecânica no mundo inteiro, a partir da flexibilização dos mercados, apoiada no termo “aldeia” que remete à proximidade entre as pessoas.
A análise marxiana, portanto, permite ainda muitas leituras da contemporaneidade. O fluxo pós-Moderno (ainda bastante questionado) inova com a descartabilidade do ser, com a globalização, porém também essas questões estavam contidas nas “barbas do profeta”.  Talvez seus limites estejam vinculados a processos históricos, como a própria fragmentação da classe trabalhadora, ou a crise ambiental. Porém o nível de alienação presente na hegemonia do império, não deixa dúvidas de que ainda precisamos de velhos barbudos interessados na busca pela igualdade entre os homens.
Se o comunismo é viável certamente não sabemos. O que sabemos é que a locomotiva está prestes a bater contra o rochedo. Cabe a nós pularmos do trem ou espatifarmo-nos pela nossa alienação.

2 comentários:

  1. Galera!Texto muito bem esclarecido e gostei da metáfora do trem.
    A obra de Mészaros atualizando O Capital é importantissima nos dias de hoje, pois demonstra como Marx mesmo não conseguindo prever totalmente os dias de hoje, conseguiu construir uma obra fascinaste que é capaz de gerar intensas discussões e propor um modelo para nossa sociedade diante dos inúmeros problemas que o capitalismo nos apresenta.
    Vejo que o próximo passo a seguir não é buscar interpretar as palavras de Marx, e sim, planejar como aplicaremos um novo modelo de sociedade quando este em que vivemos cair do penhasco.

    Jefferson Paiva

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  2. A lógica capitalista maior do que o sistema político mencionado no texto acima, é a dinâmica de mercado e a indústria cultural, que sorrateiramente se adentrou na vida da maioria da população no século XX. István Mászáros no livro “O Poder da Ideologia” contextualiza o modelo de mercado atual como uma “divisão internacional do trabalho”. Uma rede de mercado que depende da participação de muitos países, pois para suprir a demanda de matéria prima, tecnologia, produção e venda, integra o trabalho de países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Montando o que Hardt e Negri conceituaram de “Império” em seu livro homônimo: um sistema fortíssimo capaz de manter a dinâmica mercantil, pois o mundo precisa trabalhar e consumir explorando o trabalho de uns e explorando o consumo de outros.
    Trabalho e consumo estes, alienados. Onde o trabalhador se especializa para manter seu cargo e desconhece o mundo ao seu redor e, ao mesmo tempo, consome coisas inúteis, supérfluas. Conceito de alienação que foi difundido pela Escola de Frankfurt pela “Indústria cultural”. Componente subjetivo que através da mídia de massa, como o cinema e televisão conquistaram a maior parte do planeta. Que subjetivamente implantou padrões de comportamento, gostos, personalidades respeitadas pela população.
    O enfoque da cultura de massa em programas de divertimento e na banalidade, juntamente com a especialização do trabalho criaram seres apáticos, descompromissado com a politica e os acontecimentos do mundo. Tornaram-se seres impessoais, individualistas que somente gastam energias com seus interesses, sem conseguir ver que o interesse de todos também é dele. Marx e Mezaros, ambos acreditavam que emancipação do individuo para reverter essa apatia e descompromisso politico.
    Lefebre acredita que o problema do capitalismo é a dependência que os indivíduos tem da cidade. O frutos aparentemente fáceis que a cidade oferece seduz os indivíduos. Os supermercados, restaurantes, aparelhos de dvd, smarthphones, ipads, roupas nike ou puma são cuidados fúteis para parecer estar na moda. Moda esta ditada pela indústria cultural visando o consumo da população. O consumo que visa a inclusão num contexto desejado, almejando pertencer a certa classe ou grupo de pessoas. Conceito desenvolvido por Gramish como “consumo por inclusão”.
    Um bom exemplo para o fetichismo do consumo é o processo de urbanização sofrido pelos índios do Brasil, retratado por Darcy Ribeiro em “Os Índios e a Civilização: A integração das populações indígenas no Brasil moderno“. “Para os índios Kaapor, por exemplo - a civilização que lhes é acessível representa coisa bem diversa do progresso industrial e dos requintes da ilustração. Para eles, civilizar-se é ser engajado na vida famélica do seringueiro, do castanheiro, do remador; é ser brutalizado pelo guante do patrão. Civilizar-se é viver a vida do seringueiro, isolado com a mulher e os filhos em sua choça num braço de rio, vendo as mesmas pessoas que sempre vêm na mesma canoa para lhe trazer os mesmo mantimentos e levar a mesma produção de borracha. Suas oportunidades de gozar os benefícios da cidade são praticamente nulas.”
    Darcy Ribeiro acreditava que o problema do desenvolvimento do índio, não é seu desenvolvimento em si, pois sim sua dependência a um grupo estranho. A subordinação à economia mercantil transformou a vida do índio no Brasil. Guardada as devidas proporções podemos comparar a situação do índio a do trabalhador da cidade, isolado com sua mulher e filhos na própria casa, no meio da cidade cheia.

    Danilo Marroco

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